Esfinge-do-loendro confirmada pela primeira vez em Portugal
A esfinge-do-loendro (Daphnis nerii), uma das maiores mariposas noturnas da Europa, foi confirmada pela primeira vez em território português. O registo, publicado num artigo científico pelos entomólogos Eduardo Marabuto e Albano Soares, baseia-se em observações entre 2014 e 2024, indicando a expansão ocidental da espécie.
A esfinge-do-loendro (Daphnis nerii), uma das maiores mariposas noturnas da Europa, foi confirmada pela primeira vez em Portugal. A descrição dos registos, realizados entre 2014 e 2024, foi publicada num artigo na revista científica Zoodiversity, assinado pelos entomólogos Eduardo Marabuto, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, e Albano Soares, do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal. A descoberta aumenta a lista das mais de 2600 espécies de mariposas noturnas registadas no país.
Silenciosamente e quase sem chamar a atenção, esta enorme borboleta de tons esverdeados está a expandir o seu território de ocorrência para oeste, impulsionada, muito provavelmente, pelas alterações climáticas. Ao longo do caminho, encontra com facilidade a planta da qual se alimenta: o loendro.
Esta espécie, que voa exclusivamente à noite, tem uma distribuição geográfica que abrange desde a África subsariana e a bacia do Mediterrâneo até países mais orientais, como o Paquistão e as Filipias. Contudo, na última década, as mudanças climáticas terão facilitado a expansão natural desta espécie migradora. "Nos últimos anos, os registos aumentaram substancialmente em vários países europeus, como na Alemanha, Hungria, França e Bélgica", escrevem os autores no artigo científico.
Publicado no final de julho, o estudo descreve as repetidas ocorrências da esfinge-do-loendro na Península Ibérica, alargando assim o território conhecido da espécie na Europa. Até ao momento, existem cinco registos confirmados desta espécie em Portugal, num total de 54 na Península Ibérica.
O primeiro registo confirmado no país ocorreu a 26 de novembro de 2014. Uma fêmea foi encontrada ao anoitecer no Estádio Municipal de Seia, na Guarda. O próximo evento só aconteceu quatro anos depois, no Montijo, trazendo uma novidade significativa: a primeira prova de que a espécie se estava a reproduzir.
"Tudo começou com uma mensagem no Facebook do Tagis", recorda Albano Soares. "Era de uma senhora do Montijo que falava sobre uma borboleta que encontrou e que não tinha conseguido formar-se bem. Olhei para aquilo e pensei que a senhora tivesse ido de férias a Moçambique, a Angola ou a Cabo Verde e tivesse trazido a borboleta de lá", contou o entomólogo.
Passados dois ou três dias, por descargo de consciência e para garantir que a cidadã não ficava sem resposta, Albano Soares deslocou-se ao local. Perguntou se tinha trazido a borboleta de muito longe, ao que a senhora respondeu que não, que era do Montijo, e explicou que era uma lagarta que a filha tinha apanhado na rua.
No mesmo dia, Albano e Eduardo encontravam-se juntos no Montijo, com uma suspeita mas "sem esperança nenhuma" de encontrar algo especial. "Fomos ter com a senhora a um jardim com loendros no meio dos prédios e a primeira coisa que vimos foi um loendro completamente comido; das folhas apenas restavam as nervuras", descrevem.
Perceberam então que estavam perante algo especial. "O loendro é muito venenoso, nenhum animal come loendro. Só podia ser a Daphnis nerii". Começaram então a escavar a manta morta por baixo do loendro e apareceram oito pupas e uma pré-pupa. "Foi a primeira prova de reprodução da espécie em Portugal".
Posteriormente, em novembro de 2018, um macho adulto foi visto no Parque Silva Porto, no bairro de Benfica, em Lisboa. O último registo confirmado data de 29 de novembro de 2024, em São Mamede de Infesta, no Porto, onde uma fêmea adulta foi observada.
Segundo o artigo científico, "não há provas de que a espécie mantenha populações residentes em Portugal". Os autores constatam, no entanto, que em Portugal acontecem eventos periódicos de dispersão e que esta espécie é capaz de completar o seu desenvolvimento localmente.
Eduardo Marabuto e Albano Soares acreditam também que estas borboletas que chegam a Portugal não têm origem no Norte de África, como se chegou a acreditar, mas sim da Europa mediterrânea. "Há muito poucos registos no norte de África", explicou Eduardo Marabuto à Wilder. "Além disso, nos últimos anos têm havido ondas migratórias durante as quais têm aparecido imensos registos primeiro na zona do Adriático ou da Europa de Leste Central e depois em França, Holanda, Reino Unido e Finlândia. Mas a Portugal e Espanha sempre chegaram muito poucas. Parece que esta espécie vem do leste em direção ao oeste, talvez seguindo ventos predominantes. Acreditamos que estará a vir da Europa Mediterrânea, que é onde há muito mais registos ao longo das últimas décadas".
"Este é um bicho bastante grande, bastante bonito, que chama a atenção. Existem vários registos feitos por observadores casuais na Europa porque as pessoas têm a tendência de fotografá-la", acrescentou Marabuto.
Não se sabe ainda o que o futuro trará à esfinge-do-loendro em Portugal. "Esta é uma espécie que beneficia de condições particularmente tropicais, quentes e húmidas, que não se encontram em Portugal, pelo menos por enquanto. Temperaturas abaixo dos 5ºC ou 10ºC não são particularmente favoráveis para ela. O inverno é o seu principal problema", explicou Eduardo Marabuto.
Ainda assim, salientou, "com o avanço das alterações climáticas, pode ser que a espécie se venha a estabilizar aqui, porque as plantas de que depende são relativamente frequentes. Acho que é possível que a esfinge-do-loendro se torne residente, mas é preciso mais dados, mais observações. Se ela se reproduzir ao longo dos anos, isso pode indicar, de facto, um estabelecimento".
Independentemente disso, Eduardo Marabuto acredita que esta espécie icónica e "totalmente benigna para os nossos ambientes humanizados" pode vir a tornar-se uma "espécie-bandeira para conhecermos mais sobre borboletas. Isto porque é uma das maiores mariposas da nossa fauna e é inegável que tem padrões atrativos. Pode ajudar a trazer mais pessoas para a observação de borboletas e da natureza e a aumentar o apreço pela biodiversidade".
Este caminho nunca foi tão necessário. "Estamos a assistir a uma homogeneização dos biomas a nível mundial. Isto é preocupante porque elimina grande parte da diversidade ou entra em competição com alguma da biodiversidade e da diversidade genética que foi gerada ao longo de milhares de milhões de anos", alertou.
Mas a natureza continua a surpreender com a sua riqueza e diversidade. "Nunca se sabe o que podemos encontrar mesmo à porta de casa, nas nossas ruas. É por isso que é tão interessante observar borboletas", notou Eduardo.
Para Albano Soares, encontrar uma esfinge-do-loendro foi algo que não vai esquecer. "Nunca esperei ver este bicho na vida. Conhecia-o, sabia que era enorme, muito comum e que se alimenta de loendro, que há em todo o lado. Mas até há uns anos atrás não havia registos na Europa. Mas nestas coisas do mundo natural, o que não faltam são surpresas. Tinha a esperança de que um dia aparecesse por cá. E na realidade, apareceu".
N.Dossary--al-Hayat