Paris expõe manuscrito emprestado pelo México sobre viagem mítica dos astecas
A Biblioteca Nacional da França (BnF) expõe, a partir desta sexta-feira (18), o Códice Boturini, um manuscrito famoso em preto e branco que relata um trajeto mítico dos astecas. Esta é apenas a segunda vez que este documento, emprestado pelo México à França, é exibido na Europa.
Este manuscrito extraordinário, com quase 5,50 metros de comprimento e formado por 22 lâminas de papel amate, um tipo de papel artesanal tradicional do México, dobradas em pregas, relata a migração dos astecas da mítica Aztlán, em 1064, até sua chegada ao vale do México, onde fundaram a cidade México-Tenochtitlán em 1324.
O empréstimo desta conhecida peça para a França faz parte de uma exposição cruzada com o México, no âmbito do bicentenário das relações diplomáticas entre os dois países.
Desde a quinta-feira precisamente está em exposição no México o histórico Códice Azcatitlán, conservado na BnF e que o governo mexicano reivindica da França.
- Sem cor -
O Códice Boturini, elaborado no século XVI, está repleto de personagens, homens e mulheres, que avançam entre as pregas, intercalados com pequenos pictogramas quadrados que representam os anos que estiveram em cada local.
Uma fileira sinuosa de pegadas funciona como um fio condutor do percurso.
"É, segundo os cânones estéticos, muito, muito próximo do que se fazia durante o período pré-hispânico, com pouca influência ocidental", explicou à AFP Olivier Jacquot, especialista em manuscritos dos fundos americanos da BnF.
Embora outros códices narrem a história desta migração, a particularidade deste documento, também conhecido como Tira da Peregrinação, é que foi pintado em preto e branco, diferentemente da maioria das peças deste tipo, cheias de cor.
Uma das páginas de maior destaque, segundo o especialista, mostra a chegada dos astecas a Chapultepec, cujo nome é representado com um gafanhoto sobre uma colina e uma fonte de água. Segundo o manuscrito, permaneceram ali por quase 20 anos.
A tira termina abruptamente, com meia página, onde veem-se dois personagens armados com facas. Por isso, o documento não inclui a criação de México-Tenochtitlán, embora se intua que este será o final, levando em conta os relatos de outros documentos antigos, explicou Jacquot.
- Contexto difícil -
O Códice Boturini, cujo nome provém do historiador e colecionador italiano a quem pertenceu no século XVIII, se encontra conservado na Biblioteca Nacional de Antropologia e História do México.
Exposta até 13 de dezembro em Paris, esta é a segunda ocasião que a peça é exibida na Europa, mais de dois séculos depois de um evento realizado em Londres.
Este empréstimo cruzado entre França e México ocorre em um contexto em que o país latino-americano reivindica a devolução destas obras manuscritas sobre os povos originários que ilustram a vida e as crenças da civilização mexica.
A operação foi anunciada em novembro passado pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e seu par francês, Emmanuel Macron, por ocasião da visita oficial de Macron ao México.
Esta iniciativa "representa a vitalidade das relações científicas e culturais [entre México e França], que vão muito além de um contexto que pode ser difícil", disse à AFP o presidente da Bnf, Gilles Pécout, por ocasião da apresentação da peça.
R.Rabiah--al-Hayat